> cravoRosa: Literatura
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Viajar?Para viajar basta existir.

Viajar? Para viajar basta existir.
Vou de dia para dia, como de estação para estação,
no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças,
sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo?Só a fraqueza extrema da
imaginação justifica

que se tenha que deslocar para sentir.

"Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo".
Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a volta, é o
mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o
principio, é o nosso conceito do mundo.
É em nós que as paisagens tem paisagem. Por isso, se as imagino, as crio;
se as crio, são; se são, vejo-as como ás outras. Para que viajar? Em Madrid,
em Berlim, na Pérsia, na China, nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em
mim mesmo, e no tipo e gênero das minhas sensações?

A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não
é o que vemos, senão o que somos.

Fernando Pessoa


terça-feira, 10 de agosto de 2010

A-N-I-V-E-R-S-Á-R-I-O


Soneto de aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.


terça-feira, 20 de julho de 2010

O Direito de...



O direito de não ler.
O direito de saltar páginas.
O direito de não acabar um livro.
O direito de reler.
O direito de ler não importa o quê.
O direito de amar os “heroís” dos romances.
O direito de ler não importa onde.
O direito de saltar de livro em livro.
O direito de ler em voz alta.
O direito de não falar do que se leu.

Daniel Pennac, Como um Romance, Ed. ASA, 1992, p. 155.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Foram Sete de Uma vez #2 versão adaptada dos Contos Tradicionais



Dona Selecção


Era um jogador muito poltrão, que estava jogando no estádio; como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir-se de valente. Vai de uma vez viu muitos matraquilhos juntos e de uma pancada rodou sete. Daí em diante não fazia senão gabar-se:
- Eu cá rodo sete de uma vez!
Ora o treinador andava muito aparvalhado, porque lhe tinha abalado na guerra o seu capitão Dom Caio, que era o maior valente que havia, e os jogadores adversários já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-los. Os que ouviram o jogador andar a dizer por toda a parte: “Eu cá rodo sete de uma vez!” foram logo metê-lo no bico do treinador, que se lembrou de que quem era tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio.
Veio o jogador à presença do treinador que lhe perguntou:
- É verdade que rodas sete de uma vez?
- Saberá Vossa Majestade que sim.
- Então nesse caso vais comandar as minha equipa e atacar os adversários que me estão cercando.
Mandou vir o fardamento de dom Caio e fê-lo vestir ao jogador, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas; depois disse que trouxessem a bola branca de Dom Caio para o jogador jogar. Ajudaram-no a entrar para o relvado, e ele já estava a tremer como varas verdes; assim que o esférico deslizou sentiu as esporas, botou à desfilada, e o jogador a gritar:
- Eu caio, eu caio!
Todos os que o ouviam por onde passava diziam:
- Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.
O esférico, que andava acostumado às escaramuças, correu para o sítio em que se combatia, e o jogador com medo de cair ia agarrado aos calções, a gritar como um desesperado:
- Eu caio, eu caio!
O adversário, assim que viu o famoso esférico branco do capitão valente e ouviu o grito: “Eu caio, eu caio!”, conheceu o perigo em que estava, e disseram os jogadores uns para os outros:
- Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio!
E botaram a fugir à debandada; os jogadores do treinador foram-lhes no encalço e driblaram-nos, e o jogador ganhou assim a batalha só em agarrar-se aos calções e em gritar: “Eu caio”.
O treinador ficou muito contente com ele e, em paga da vitória, deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem.

Foram Sete de Uma vez #1 versão original



''Era um alfaiate muito poltrão, que estava trabalhando à porta da rua; como ele tinha medo de tudo, o seu gosto era fingir-se de valente. Vai de uma vez viu muitas moscas juntas e de uma pancada matou sete. Daí em diante não fazia senão gabar-se:
- Eu cá mato sete de uma vez!
Ora o rei andava muito aparvalhado, porque lhe tinha morrido na guerra o seu general Dom Caio, que era o maior valente que havia, e as tropas do inimigo já vinham contra ele, porque sabiam que não tinha quem mandasse a combatê-las. Os que ouviram o alfaiate andar a dizer por toda a parte: “Eu cá mato sete de uma vez!” foram logo metê-lo no bico do rei, que se lembrou de que quem era tão valente seria capaz de ocupar o posto de Dom Caio.
Veio o alfaiate à presença do rei que lhe perguntou:
- É verdade que matas sete de uma vez?
- Saberá Vossa Majestade que sim.
- Então nesse caso vais comandar as minhas tropas e atacar os inimigos que me estão cercando.
Mandou vir o fardamento de dom Caio e fê-lo vestir ao alfaiate, que era muito baixinho, e que ficou com o chapéu de bicos enterrado até às orelhas; depois disse que trouxessem o cavalo branco de Dom Caio para o alfaiate montar. Ajudaram-no a subir para o cavalo, e ele já estava a tremer como varas verdes; assim que o cavalo sentiu as esporas botou à desfilada, e o alfaiate a gritar:
- Eu caio, eu caio!
Todos os que o ouviam por onde passava diziam:
- Ele agora diz que é o Dom Caio; já temos homem.
O cavalo, que andava acostumado às escaramuças, correu para o sítio em que se combatia, e o alfaiate com medo de cair ia agarrado às crinas, a gritar como um desesperado:
- Eu caio, eu caio!
O inimigo, assim que viu o cavalo branco do general valente e ouviu o grito: “Eu caio, eu caio!”, conheceu o perigo em que estava, e disseram os soldados uns para os outros:
- Estamos perdidos, que lá vem o Dom Caio; lá vem o Dom Caio!E botaram a fugir à debandada; os soldados do rei foram-lhes no encalço e mataram-nos, e o alfaiate ganhou assim a batalha só em agarrar-se ao pescoço do cavalo e em gritar: “Eu caio”.O rei ficou muito contente com ele e, em paga da vitória, deu-lhe a princesa em casamento, e ninguém fazia senão louvar o sucessor de Dom Caio pela sua coragem.


Teófilo Braga, Contos Tradicionais do Povo Português, Dom Quixote

sexta-feira, 18 de junho de 2010

terça-feira, 15 de junho de 2010

Citação de Charlie Chaplin... não resisti

“Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa pela nossa vida passa sozinha, não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.”

segunda-feira, 14 de junho de 2010

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Momentos de Poesia, by Almada Negreiros



Se me ponho a trabalhar
e escrevo ou desenho,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar p'ra diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que, cansado, me julgo satisfeito;
e o efeito da fadiga
é muito igual à ilusão da satisfação!
Em troca, se vou por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito
sinto-me tão chefe do que é fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos
de uma aflição que não é minha,
dou-me tão perfeitamente conta do que
se passa fora das minhas muralhas
como sou cego ao ler-me ao espelho,
que, sinceramente, não sei qual
seja melhor,
se estar sozinho em casa a dar à manivela do mundo,
se ir por aí a ser o rei invisível de tudo o que não é meu.

Almada Negreiros, escrito em 1941, In Obras Completas-Poesia 4(1971)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Sugestão do Livro do Mês:

SINOPSE:

Alicia Monterroso Dobal nasce no seio de uma das famílias mais abastadas de Espanha. Porém, aos oito anos é vítima de um crime concebido por um cristão “considerado quase santo”. Nunca conta a ninguém. Porém, passa a questionar a religião católica. Aos doze anos assiste à notícia do assassinato dos israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique e sente um desgosto de tal forma invulgar que começa a interessar-se pelo judaísmo. Pelos seus dezasseis anos abandona o seu amor, Fermin, sem o avisar, e parte para o Brasil em busca do seu Eu interior e de um outro Deus que não o definido pelos católicos, tentando subsistir sozinha. Com dezoito anos emigra para Israel, onde se instala e casa. Desse enlace, um pouco forçado, tem dois filhos. Tem um cancro no útero e cura-se com o tratamento de um rabino. Durante a fase de repouso e jejum faz meditação e regressões, ficando a entender melhor certas coisas da sua vida e a sua incumbência na mesma. Divorcia-se. Ingressa nos Serviços de Segurança de Israel, torna-se terapeuta e empresária. Mas a falta de Fermin, da sua alma gémea, nunca é preenchida e o enredo continua até Alicia se confrontar de novo com o seu amor para poder finalmente decidir como pretende ser feliz…


quinta-feira, 22 de abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

«O Beco do Pânico»

SUGESTÃO do MÊS 2:

«O Beco do Pânico »

«Caíque, de seis anos, entra correndo em casa, joga a mochila no sofá e, ansioso: - Mãe! Mãe! Eliana vê o filho feliz, saltitante. Sorri. - Que foi meu filho? Que alegria é essa? - Mãe, dei hoje o meu primeiro beijo na boca, mãe! Na boca! - É mesmo, filho? Conta como foi. - Eu acho que estou apaixonado, mãe. - A mãe ri da frase do filho, tão apaixonado e tão pequeno. - E como é o nome dela? - É o Ricardo, mãe. Silêncio total.»

O Beco do Pânico, de Clovis Levi

domingo, 18 de abril de 2010

«O Amor em Armas»

SUGESTÃO DO MÊS:


«Em 1808, Portugal era um país abandonado pelo Rei e em guerra com o invasor francês. Mas era, também, um lugar onde o amor e a lealdade escreviam a história de um país.»


O Amor em Armas, de Marques Vdal

O Retrato de Mónica


Há dias em que nos lembramos das mulheres ou da mulher e, assim, dei comigo a procurar o conto de Sophia, para reler o «Retrato de Mónica». E a caricatura aparecia na forma de uma mulher sofisticada.


«Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria...» (Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares.Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).)


Mónica: figura condenada a viver dentro de uma imagem criada pela própria personagem. Ela é uma actriz que, na vida real, encarna constantemente o papel da mulher de sucesso, enfim, imposições de uma sociedade moderna que espanta os comportamentos femininos! Da mulher recatada, no aconchego do lar, à mulher moderna, ela transforma-se na imperatriz da futilidade e da sofisticação.


Que importam os pensamentos, os sentimentos vulgares como o amor ou amizade, quando o sucesso reina na imagem da sofisticação? Assim, a nossa Mónica renuncia ao amor, à santidade, à poesia... palavras soltas cujo significado implica sacrifício, dor, sentimento... palavras agastadas e procuradas na tentativa de alcançar a felicidade suprema. A renúncia transporta à aceitação social, no sentido em que se constróem interesses, contratos, laços e nós desfeitos de acordo com as circunstâncias e a aceitação conduz à felicidade social. Estar bem consigo própria sigifica tão-pouco o ser aceite pelo outro.


Actriz em palco da vida, age como marioneta manipulada pelos cordéis dos hábeis dedos da sociedade que impõe as suas ordens: vestir bem, falar melhor, ir a festas, ser vista, ser badalada, ser necessária... Tudo em prol da mudança, tudo em prol de uma nova geração de mulheres activas, tudo em prol da liberdade feminina, tudo para mostrar ao Mundo ou ao Príncipe que já não é necessário beijar a Bela Adormecida para a acordar do seu sono profundo.